



Icoaraci, que é uma palavra de origem Tupi com significado “de frente ao sol”, é também um dos oito distritos que compõem a região metropolitana do Norte de Belém do Pará. Banhada pelas águas da baía do Guajará, popularmente conhecida como Vila Sorriso, a região abriga aproximadamente 167.035 mil habitantes (IBGE, 2010) nos bairros do Cruzeiro, Ponta Grossa, Campina, Agulha, Parque Guajará, Tenoné, Águas Negras, Paracuri, Maracacuera, além de vários residenciais. Com aproximadamente 20 km de distância do grande centro, os moradores precisam se locomover diariamente, já que a grande concentração de empresas e locais de lazer estão estabelecidas nessas áreas.
O sucateamento das escolas no Distrito de Icoaraci é uma realidade lamentável e urgente que aponta as múltiplas disparidades sociais vivenciadas pelos moradores do território, principalmente daqueles que se utilizam do ensino público, logo é possível apontar que a ausência de uma estrutura apropriada denuncia o total descaso das administrações superiores responsáveis. Grande parte dos espaços escolares estão em condições impróprias e nada atraentes para que o processo de ensino-aprendizagem aconteça de forma eficaz e de qualidade, falta o básico. O resultado desse tamanho desmazelo reflete em dados alarmantes nos índices de exposição de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade que tem como efeito a evasão escolar.
1- Escolas com estruturas adaptadas para o enfrentamento das mudanças climáticas
A ebulição global é uma realidade mundial e o enfrentamento precisa ser feito de forma consciente garantindo minimamente a redução de danos que já estão sendo sentidos no território de Icoaraci. Pensando nisso, um dos sonhos para o Distrito é a adaptação de escolas com infraestruturas bioclimáticas que consistem em edificações pensadas a partir do clima local a fim de garantir conforto térmico, utilização de recursos da própria natureza e diminuição de impactos ambientais decorrentes do consumo energético. A arquitetura bioclimática é também um dos mecanismos que possibilita pensar na construção e funcionalidade de um ambiente na lógica da natureza buscando a valorização dentro e fora da construção. É repensando essas novas sugestões de construções frente ao super aquecimento global que se reduzem não somente os danos ao meio ambiente, mas também se asseguram escolas arejadas, arborizadas oferecendo conforto e bem-viver para a comunidade escolar.
2- Educação socioambiental e climática com a participação da comunidade
Entendendo que o enfrentamento das mudanças climáticas é uma prática coletiva que caminha junto com as práticas educacionais como pautado na Lei nº9.2795, de 1999³, que pontua que é através da educação ambiental que se constrói valores sociais, conhecimentos, habilidades e modalidades para a conservação do meio ambiente como essencial para a qualidade de vida e sustentabilidade. Tendo isto em mente, é importante apontar que um dos sonhos dos moradores de Icoaraci é que as metodologias curriculares que abordam sustentabilidade e meio ambiente sejam pautadas de acordo com suas realidades gerando assim afinidade e aplicação de maneira eficaz com a temática. Exemplo disso, é a medicina alternativa/complementar que não faz parte da medicina convencional, mas que foi/é uma realidade dentro do Distrito, principalmente no uso de ervas medicinais que facilmente podem ser encontradas nas feiras e quintais de moradores mais antigos do território.
3- Espaços formativos extracurriculares e interseccionais
O Distrito de Icoaraci carece de espaços que proporcionem atividades que fomentem a potencialidade cultural do território que é múltipla e ancestral. É possível apontar também que os poucos espaços culturais existentes dentro do território funcionam de forma autônoma com pouca ou nenhuma ajuda e reconhecimento governamental, promovendo na maioria das vezes o deslocamento dos moradores para o centro da cidade, que é um dos pontos da cidade com a maior concentração de eventos culturais.
O eixo em questão foi pensado de forma conjunta por serem temáticas que estão diretamente correlacionadas dentro do território de Icoaraci. Algumas problemáticas já são queixas antigas dos moradores, principalmente aqueles que precisam enfrentar ruas alagadas, falta de abastecimento de água- e quando abastecida é sempre de péssima qualidade, lixos nas ruas e vias públicas e os inúmeros riscos de doenças provenientes dos vetores por conta de alagamentos.
1- Usufruir das praias sem riscos doenças e contaminações
Icoaraci é banhado por rios e um dos grandes privilégios dos moradores é ter a praia do Cruzeiro de fácil acesso sem precisar se locomover para outras localidades, porém, há anos a mesma é considerada imprópria para banho. A Secretária Municipal de Meio Ambiente alerta que os riscos de contaminação por microorganismos, como bactérias, fungos e outros causadores de doenças foram um dos principais fatores que tornaram o local interditado. Para além disto, a poluição também é de chamar atenção por conta das grandes quantidades de resíduos sólidos, motores de embarcações, o lançamento inadequado de esgotos, chorume, fezes de animais e entre outros dejetos e fontes de poluição. A praia do Cruzeiro também já foi cenário de várias mortes por afogamento por teimosia dos moradores que mesmo em condições impróprias continuam usufruindo da praia
2- Sistema de limpeza e coleta de resíduos sólidos atuando de maneira eficaz
O lixo, assim como a falta de água, sempre foram problemas antigos e recorrentes em Icoaraci, e dependendo da localidade dentro do Distrito se torna ainda mais difícil a chegada dos serviços de limpeza e coleta. É corriqueiro encontrar entulhos, restos de construções, móveis velhos despejados diariamente de forma imprópria pela população causando grandes obstruções e transtornos nas vias públicas, principalmente na época de grandes chuvas.
3- Acesso à água tratada e de qualidade
O acesso à água é um dos assuntos mais delicados dentro de alguns bairros em Icoaraci, pois a população sofre as consequências diariamente da falta de abastecimento e do tratamento inadequado que pode ser percebido quando milagrosamente ocorre de haver água em suas torneiras, a água de cor barrenta e suja não nega o descaso.
4- Acesso ao atendimento médico com dignidade
A população do Distrito de Icoaraci conta com postos de atendimentos rápidos e o Hospital Regional Abelardo Santos, sendo uma das principais referências dentro do território pela sua estrutura e especificidades de atendimento. Porém, a população desde a reinauguração do HRAS, em 2020, reclama da burocracia para realização dos procedimentos médicos e até da ausência de atendimentos em diversos casos.
É possível notar que a cultura é uma característica pulsante no território de Icoaraci, casa de mestres e mestras de vários saberes, como bem explicamos no início desta carta. Há forte mobilização independente no território e coletiva, dentre alguns exemplo temos os terreiros, grupos de carimbó, espaços culturais como o Coisas de Negro, Ninho de Caba e Casa do Artista, há também o circuito gastronômico na Orla do distrito, as olarias do Paracuri.
1- Por uma Icoaraci com despertar de memórias
Nenhuma luta é possível sem entendermos nossa ancestralidade e reverenciar os saberes de nossos mais velhos que trilharam tantos caminhos antes de nós, para isso refletimos sobre a importância de olhar com carinho para Icoaraci e todas características que fazem esse local tão singular. Essa percepção só é possível quando acessamos nossas memórias individuais, fazendo conexões coletivamente, contudo, essa reflexão só é possível de ser feita com os acesso básicos, tais como, uma saúde digna, afinal, para estarmos sãos para seguir nas atividades culturais precisamos de cuidados com nosso corpo e mente e partir a segurança ainda maior para se criar a autoafirmação quanto a pertencente do local.
2- Por uma construção do polo turístico cultural
Para trilharmos um caminho firme e fértil é importante fazermos referência a filosofia Sankofa, no sentido de que só podemos construir um presente e futuro melhor de forma completa com respeito aos nossos ancestrais e saberes construídos antes e compreendendo que os saberes vão além dos âmbitos escolares, e que para que se tenha uma continuidade dos saberes dos agentes culturais para as gerações mais jovens e, uma das maneiras de praticar isto é por meio de oficinas formadoras ministradas pelos próprios fazedores de cultura, de diversas áreas do território, de preferência com apoios nas esferas municipal, estadual e federal. Para que este sonho seja realizado carecem de um mapeamento da região no sentido de conectar os fazedores de cultura, que para além das atividades remuneratórias, haja uma rede de apoio entre eles/elas.
Fazer o deslocamento de Icoaraci para o centro da cidade é um verdadeiro calvário para quem depende do transporte público. Dentre as mazelas mais indicadas pelos usuários estão a superlotação, ônibus sucateados, falta de uma frota maior, a regularidade nos horários e a tratativa dos profissionais, que por vezes são grosseiras para com os passageiros. Com as urgências climáticas em evidência, o que já era precário tornou-se insustentável, os usuários dos transportes coletivo sofrem com o calor extremo, que só piora quando há lotação dos mesmos, e quando há episódios de chuva, o ambiente fechado chega a ser sufocante para as pessoas.
1-Icoaraci e a cultura do pé redondo: bora usar as ruas!
O principal meio de locomoção do território é por meio das bicicletas, e isso chamou imediatamente a atenção quando pensamos em formas de transporte sustentável, sabemos que a bicicleta é um meio que traz benefícios não somente pro meio ambiente, mas sim para saúde do ser humano.
2- Esse rio é minha rua: porque não temos transporte fluvial?
Icoaraci é cercada por uma baía, assim como a maior parte do território belenense, e ainda sim, não existe até hoje um transporte fluvial digno e efetivo para a população. Já houveram experiências de uma linha Icoaraci-Ver-o-Peso, mas que está inativa desde 2016, as alegações são de pouca demanda por parte da empresa privada que era responsável pela linha, contudo, a população discorda.
3- Icoaraci e COP-30, teremos ônibus elétricos?
Com o acontecimento da COP-30 em 2025 em Belém, muito tem se refletido sobre a estrutura que nosso Estado apresenta perante a esse evento, e mais ainda, em meio a tantas obras e investimentos, para quem vai estes recursos?! Sem dúvidas um dos maiores desejos é por uma repaginada em nossos meios de transportes, e um deles é que o benefício de modelos elétricos cheguem também para nós usuários. Também há um desejo por diversos usuários presentes na construção dessa carta por ônibus climatizados, e sonhando com esse cenários várias possibilidades ficam em aberto tais como, uma abrangência de gratuidade para pessoas baixa renda como cadastro no CadÚnico. E dentre as maiores demandas há uma urgência sobre maior segurança nos pontos de ônibus, que por vezes são soturnos e sem iluminação adequada.
É indispensável que as infâncias e suas maneiras múltiplas de percepção frente às mudanças climáticas sejam levados em consideração, visto que para além de serem vítimas também são agentes de transformação nesse cenário. O olhar sensível e a relação que as crianças têm com o meio que vivem nos convida para pensar em novas possibilidades de enfrentamento, justiça climática e novos imaginários.
1- “A minha rua alaga” (Samuel Assis- 10 anos)
É importante destacar como as crianças percebem as ausências e demandas que são parte de onde o poder público negligencia e que podemos destacar como questões que estão ligadas não somente à dignidade e qualidade de vida, mas como maneira de enfrentamento às mudanças climáticas. O saneamento básico como direito é fundamental para garantir o acesso ao bem-viver e para pensar as adaptações climáticas, pois sabemos que o saneamento eficiente e adequado garante que as comunidades consigam se proteger de eventos climáticos mais graves, como enchentes e secas, diminuindo risco de contaminação e poluição.
2- “Às vezes quando está muito quente tem gente que desmaia, tem gente que morre nesse calor” (Maria Clara- 8 anos)
De acordo com estudos recentes de uma organização que desenvolve publicamente dados e análises climáticas Belém terá 222 dias de calor intenso até 2050, que irão afetar de formas diferentes e mais graves as populações mais vulneráveis. Com isso, pessoas pobres, de periferias, população negra e mulheres tornam-se os grupos mais atingidos por toda essa crise climática.
3- “Tem gente que está matando as florestas” (Alessandra Freitas-13 anos)
A destruição das florestas no nosso território já é uma realidade que se perpetua há décadas, infelizmente, e a grande urbanização de Belém é uma das provas deste fato. Os territórios que ainda possuem grandes áreas verdes sofrem de crescentes ameaças a sua permanência, sejam parques ecológicos, ou as áreas de mata de alguns bairros. As queimadas criminosas são umas das maiores responsáveis pela destruição dos nossos biomas e em setembro de 2024 o Pará seguiu como o estado que mais teve queimadas, chegando a registrar 2800 focos ativos, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)¹